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Os donos da água
O
sindicalista francês Jean Luc Touly e a socióloga Maria Esther Udaeta
debatem o drama da privatização da água. Ele aponta as práticas
inconfessáveis das transacioanais. Ela, histórias de resistência
Considerados
o grande negócio do século XXI, os serviços de saneamento básico são
disputados ferozmente pelas grandes multinacionais do setor, de olho
num mercado potencial de US$ 400 bilhões por ano.
São
francesas as duas maiores do mundo – Veolia Environnement (nascida da
gigante Vivendi Universal) e Grupo Suez (antiga Lyonnaise des Eaux).
Juntas operam 80% dos serviços em seu país de origem e estão presentes
em todos os continentes, inclusive América do Sul. Em 2004, a Veolia
faturou € 24,6 bilhões; a Suez, € 40,7 bilhões.
Muito
mais que competência técnica, conforme afirma a propaganda das
sofisticadas brochuras distribuídas pelos agentes da privatização, o
segredo do sucesso está em práticas impublicáveis. Ou eram assim até o
lançamento do livro “Les véritès inavouables de Vivendi (As verdades
inconfessáveis da Vivendi)”, de autoria do sindicalista Jean Luc Touly.
Também
presidente da seção francesa da Associação pelo Contrato Mundial da
Água, no início de março, ele esteve no Brasil a convite do Governo do
Paraná – que disputa o controle da Sanepar com o consórcio liderado
pela Vivendi-Veolia – e relatou parte dessas manobras. No dia 8,
participou em São Paulo de debate sobre o tema, realizado pelo Sintaema
(Sindicato dos Trabalhadores de Água, Esgoto e Meio Ambiente), com
apoio do SEESP, IMG (Instituto Maurício Grabois) e outras entidades.
Jeitinho francês
Segundo
Touly, o salto vertiginoso que a Vivendi e a Suez deram a partir dos
anos 50, quando prestavam serviços a apenas um terço dos municípios
franceses, deveu-se principalmente ao “direito de entrada”. “Em troca
de contratos de 30 ou 40 anos, elas concediam empréstimos às
administrações locais, a juros de 15%, bastante altos, mas que seriam
pagos pelo consumidor juntamente com a tarifa.” O artifício, contou
ele, foi proibido em 1993. No entanto, encontram-se formas de burlar o
bloqueio. “Muito comum tornou-se o superfaturamento na compra de
anúncios em jornais municipais. As empresas pagavam até 20 vezes o
preço normal. Outro modo é financiar os times de futebol das cidades,
que têm verbas das prefeituras”, relatou.
Contrato
garantido, é preciso fazer com que a conquista valha a pena. Um
jeitinho para maximizar os lucros é incluir na conta de água do
consumidor taxas e serviços os quais ele sequer conhece. “Por exemplo,
os investimentos feitos são avaliados a cada seis meses e cobrados. O
problema é que o cidadão não tem qualquer controle sobre isso.”
No
que diz respeito às obras e manutenção que a empresa está obrigada a
fazer por contrato, há também diversas possibilidades de ganho. Esses
serviços são contratados sem licitação, muito freqüentemente de
subsidiárias do mesmo grupo. “Apenas com esse tipo de irregularidade, a
Vivendi ganhou € 5 bilhões.”
Abocanhar
mercados mundo afora exige outros artifícios. Em países muito pobres ou
vítimas de catástrofes, um bom caminho é a “ajuda humanitária”.
“Primeiro, mobiliza-se uma missão com o pretexto de ajudar as
populações que estão sem suprimento de água. Depois, chega a equipe comercial para convencer o poder público a conceder o serviço, sempre com o apoio do Banco Mundial.”
Em
nações como o Brasil, em que há infra-estrutura e capacidade técnica, a
receita é diferente. “Nesses casos, entram pelas bordas, com um
contrato de assistência técnica ou para a construção de uma estação de
tratamento”, ensina Touly. Além disso, não aparecem abertamente, mas
atuam por meio de uma pequena filial local ou em sociedade com
companhias do país.
Nesse
campo, as PPPs (Parcerias Público-privadas) têm a função de assegurar
total garantia ao investidor privado. “Legitimam os contratos de tal
forma que fica impossível rompê-los”, explicou.
Bolívia, a vítima
Corroborando
as denúncias feitas pelo sindicalista, a socióloga boliviana Maria
Esther Udaeta, que também participou das discussões sobre o tema em São
Paulo e no Paraná, relatou as conseqüências da privatização da água em
seu país. A luta acirrou-se em 2000, quando houve a “Guerra da Água” em
Cochabamba e a Bechtel United Utilities foi literalmente posta para
correr. Hoje, a disputa se dá em La Paz e El Alto, contra a Águas de
Illimani, controlada pela Suez. Embora o contrato tenha sido cancelado
por decreto presidencial, após uma paralisação de três dias em janeiro,
a empresa segue operando os serviços. A situação já motivou até uma
greve de fome dos ativistas.
Tamanha
revolta explica-se por práticas de gestão ultrajantes. Quando ganhou o
contrato em 1997, a companhia foi a única concorrente e as regras foram
alteradas para que ela se encaixasse nas exigências. Embora alegue ter
investido US$ 58 milhões, estima-se que US$ 55 milhões sejam créditos
do Banco Mundial para a Bolívia. Assim, teriam desembolsado de fato
apenas US$ 3 milhões.
No
entanto, segundo Udaeta, que é membro da Comissão para a Gestão
Integral da Água na Bolívia, sequer esse acordo de compadres a Suez se
digna a cumprir. “Deveria fornecer água potável à região das oito
bacias que ganhou na concessão. Entretanto, concentrou-se nos locais
mais populosos e deixou de lado grandes áreas. Em El Alto, 25% não têm
acesso à água e não terão a não ser que eles próprios paguem pela
ligação, ao custo de US$ 400. E estamos falando de gente que vive com
US$ 1 por dia.”
A
partir daí, segue-se longa lista de irregularidades. Não instalaram
medidores de consumo e cobram arbitrariamente; a tubulação de esgoto
está dentro das casas para que, ao se romper, seja problema do morador;
e subiram e dolarizaram as tarifas.
Direito que mobiliza
Em entrevista, Maria Esther Udaeta aponta os fatores que motivaram os bolivianos a lutarem contra as poderosas transacionais
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| Foto: Juliana Bruce |
Já
ouvimos falar muito sobre o que aconteceu em Cochabamba no ano de 2000
e agora há outro conflito nas cidades de El Alto e La Paz. O que deu
origem a esses conflitos?
Os
camponeses de Cochabamba e outras cidades mais populosas estão
acostumados a fazer a gestão da água e de sua escassez através de
práticas sociais, culturais e econômicas. São práticas milenares de
uso, captação e distribuição das águas com uma lógica e característica
coletiva e não individual. Eles são os verdadeiros donos da água.
Durante a década de 90 houve muitas leis neoliberais, até que em 99
criaram uma lei que desconhece essa forma de gestão impondo regras de
mercado e exclusividade. A guerra da água é conhecida como algo que
aconteceu em alguns dias, mas ela tem sido um processo, que se tornou
mais forte entre os meses de outubro de 99 a abril de 2000. Após meses
de luta nós conseguimos revogar essa lei.
A população da cidade e os setores campesinos se envolveram juntos nessa luta?
No
auge da guerra de água sim. Cidade e campo lutaram juntos. Mas com uma
diferença entre urbanos e rurais. A parte urbana preocupava-se muito
com as tarifas e não queria pagá-las. No campo, onde os mais pobres
estavam sendo atropelados em seus direitos, a preocupação estava
voltada para os pequenos produtores e seus sistemas de irrigação.
Porque eles usam a mesma fonte de água para diversos fins. A lei de 99
não reconhecia esses usos.
De que forma esses movimentos começaram a se articular em Cochabamba ?
Em
Cochabamba surgiu um movimento sete meses antes da guerra da água que
questionava a estrutura tradicional de partidos políticos e sindical.
Isso foi uma base para o que está acontecendo atualmente. Nós, como
coordenadores de Defensoria da Água e da Vida, fomos reivindicar nossos
direitos pela água. Foi uma proposta de luta muito interessante e
politicamente forte, que não ficou apenas em Cochabamba, ganhou um
âmbito mais global. Com mais visão de país do que a cidade. Essa visão
tem sido muito importante não só para a defesa da água, mas também para
propor mudanças. A lei que provocou o conflito não diferenciava
serviços de caráter empresarial e comunitário e continha artigos que
davam possibilidade de estabelecer o monopólio da água. Também houve a
questão da Superintendência de Saneamento Básico, similar ao que existe
no Brasil (ANA) que, supostamente pela lei, teria o papel de regular e
fiscalizar, mas nossa experiência demonstrou que ela tem andado de mãos
dadas com outros setores. Além disso, lhe deram um poder maior que o do
presidente da República. Nem ele pode afastar um superintendente. Essa
Superintendência teve um papel evidente e desmascarado de conivência
com as empresas em Cochabamba e também com a Águas de Illimani. Foi tão
intolerável que o próprio presidente se incomodou. Hoje a
Superintendência está muito desacreditada.
Apesar das vitórias de Cochabamba, a lei de água continua vigente ou houve mudança?
Isso
é bem complicado. Temos uma lei de água grande do ano de 1906. E esta
lei esteve vigente até a década de 90. Desde então, fizeram 32 versões
de ante-projetos de lei de água financiados por cooperação
multilateral, como do Banco Mundial, e o
resultado é que não se pode sancionar nenhuma lei , por isso, houve um
interesse por uma lei setorial. Não temos uma lei geral, o que temos é
um marco regulatório muito complicado porque dentro de cada lei,
pequenas ou grandes, existem outras pequenas leis de água. É um
problema legal e jurídico. Cada lei tem uma prerrogativa sobre a água.
E quando você pensa em ter uma lei geral de água tem que se pensar em
modificar 21 normas.
Apesar da empresa Águas de Illimani não ter mais contrato, ela continua operando?
Sim.
Ela opera na capital, La Paz e na cidade de El Alto. Tem a concessão
para as duas. Em janeiro houve a greve de três dias que resultou em um
decreto que cancelou o contrato. Depois começou uma crise para decidir
quem iria entrar. Participaram prefeitos, a Federação de Juntas de
Vizinhos de El Alto (Fejuve), a Superintendência e também alguns
organismos internacionais interessados em financiar. A partir daí
entramos em um clima de instabilidade sobre quem ficaria encarregado
pela Superintendência, ninguém quer este cargo porque está muito
questionado. Também houve crises de gabinete e muita pressão
internacional.
O contrato com as Águas de Illimani não existirá mais?
O
decreto é claro. Terminou o contrato e é preciso analisar o que será
favorável aos interesses da Bolívia de acordo com as leis e a concepção
política do Estado. O que não está claro é como fazer isso.
Participaram da entrevista Jorge Pereira e Tiago Soraes
Publicado em www.planetaportoalegre.net: 16/03/2005
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