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A sete chaves
Documentário
investiga "As Origens da Aids" e insiste pergunta que atormenta por
anos a ciência e a humanidade. Experiências com vacinas usando
populações coloniais como cobaias podem explicar o HIV?
Não
há dúvida de que as populações pobres tornaram-se as maiores vítimas da
AIDS. Dois terços da população da África sub-saariana (região que vai
do centro do continente até a África do Sul) é portadora do vírus, um
contingente de 25 milhões de pessoas, entre adultos de até 49 anos e
crianças. Para combater a doença, os remédios produzidos pela indústria
farmacêutica dos países do norte do mundo são excessivamente caros,
dada a pobreza da região. Mas além de não ajudar, os países ricos,
ex-metrópoles do continente, podem também ser os responsáveis diretos
pela migração do vírus da doença, originário de chimpanzés, para o
homem. A tese, controversa no meio científico, é o tema do documentário
As Origens da Aids (The Origins of Aids, de 2003).
Em
1992, o jornalista da revista Rolling Stone, Tom Curtis, foi o primeiro
a levantar a hipótese de que a doença teria se originado do uso de
tecido vivo de macacos para a produção de uma versão teste da vacina
anti-pólio. Entre 1957 e 1959, mais de um milhão de crianças, na região
do antigo Congo Belga, foram objeto de teste de uma vacina criada pelo
médico polonês, radicado nos EUA, Hilary Koprowski. Curtis relacionou
as áreas de vacinação com o epicentro do surgimento da doença. A teoria
foi violentamente combatida pela comunidade científica e rapidamente
refutada. Até hoje a hipótese mais aceita é de que o vírus tenha
passado ao homem pelo manuseio de facas usadas para cortar macacos
usados como alimento. Mas, outro jornalista, o repórter da BBC, Edward
Hooper, aproveitou a hipótese e iniciou suas pesquisas.
Dezessete
anos depois, Hooper publicou um livro chamado “The River”, reunindo um
farto material, tratado com rigor acadêmico, que retomou a hipótese de
Curtis. A publicação atingiu como uma lança o coração da comunidade
científica. Em seu trabalho, Hooper acusa o mesmo Koprowaski de ter
usado chimpanzés para o cultivo de sua vacina experimental,
contrariando as recomendações de da classe
científica e de Albert Sabin, de quem era colega e adversário na
corrida para o estabelecimento de uma versão confiável do medicamento.
As
Origens da Aids conta essa história inquietante e traz um fato novo de
extrema relevância, entrevistas e imagens que atestam o uso de mais de
400 chipanzés no laboratório que era comandado por Koprowski. No ano
seguinte à publicação de The River, a Royal Society – a sociedade dos
cientistas britânicos – realizou um seminário para debater o tema e
reuniu, frente a frente, Koprowski e Hooper. Ao final do evento, os
cientistas britânicos anunciaram ter encontrado uma última amostra da
vacina experimental produzida no Congo Belga e enviada aos EUA. Nela,
não haveria nem traços do HIV, nem de DNA de chimpanzé. E esta seria a
prova definitiva.
Mas
o documentário questiona essa evidência. A amostra, tida como a última,
teve sua existência negada por muito tempo e passou por diversas mãos –
incluindo um centro de pesquisas para o qual Koprowski trabalha até
hoje. Além disso, ela pertence a um lote de vacinas CHAT (o modelo
criado por Koprowski) que foi produzida no Congo Belga mas nunca foi
aplicada por lá. Na busca por respostas, as As Origens da Aids
entrevista antigos funcionários e enfermeiros que trabalhavam para o
médico, que contam como os macacos eram capturados e usados com
crueldade em testes de laboratório. Os depoimentos são acompanhados por
imagens de filmes institucionais mostrando os macacos e louvando os
benefícios da vacinação para os africanos. A declaração do próprio
Koprowski para a equipe do documentário, negando o uso de chimpanzés,
soa no mínimo inconsistente.
Prática questionável
De
acordo com o patologista Cecil Fox, um dos entrevistados, até hoje as
vacinas antipolio são produzidas a partir do cultivo de células de
macacos. Segundo ele, o uso de macacos já poderia ter sido substituído
há muito tempo, o que só não acontece por causa da indústria
farmacêutica, que já tem procedimentos e infra-estrutura prontos e
teria que gastar muito para substituí-los.
A
indústria, por sinal, foi o primeiro refúgio de Koprowski logo no
início de sua carreira. Em 1950, ele foi acusado de usar como cobaias
20 crianças deficientes de um orfanato em Nova Iorque. Com o escândalo,
ele perdeu o financiamento público mas continuou seus experimentos de
1952 a 1955, prosseguindo nos testes com humanos agora patrocinados
pela iniciativa privada. Em 1955, a vacina criada por seu concorrente direto, John Salk, causou a morte de 11 crianças e deixou outras 260 adoecidas.
Koprowski,
então, voltou a receber financiamento público e iniciou, com Albert
Sabin, um misto de colaboração e disputa para conseguirem uma nova
versão da vacina. Sabin entrou em acordo com o governo da União
Soviética e fez testes em milhões de pessoas no Cazaquistão, Letônia e
Estônia, importando macacos asiáticos. Koprowski, em acordo envolvendo
o governo belga e estadunidense, montou seu laboratório no Congo, que
foi uma colônia até 1960.
Um
ano após instalar seu laboratório, em 1957, Koprowski foi alertado por
Sabin de que a CHAT desenvolvida por ele era altamente instável e que
tinha encontrado um vírus desconhecido, a que chamou vírus X. Não
necessariamente este vírus era o antecessor do HIV, pois outros vírus
de macacos já haviam sido encontrados nas vacinas de Salk. Mas
Koprowski apenas respondeu a Sabin de maneira grosseira e ignorou o
alerta.
As
Origens da Aids é especialmente chocante por mostrar o desdém e o
desrespeito que as populações dos países pobres, especialmente das
colônias, são tratadas. Em casos de saúde pública, o princípio de
precaução deve ser a regra básica. Além disso, mostra como a classe
científica ainda resiste a tratar publicamente de suas ações e de seus
erros do passado. A mensagem é exatamente essa, enquanto os problemas
não forem tratados de forma ampla e transparente – o que às vezes
significa transpor os muros da academia – as tragédias continuarão
ocorrendo.
Serviço: As Origens da Aids está sendo exibido no canal a cabo Cinemax. A próxima exibição será no dia 31/12/2004, às 7:30 h
Publicado em www.planetaportoalegre.net: 21/12/2004
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