Como
as grandes corporações capitalistas desenvolvem, sem alarde,
tecnologias que poderão obrigar as sociedades a lhes pagar royalties
pelo acesso à vida e à cultura
Em
meados do século XIX, Karl Marx descreveu, no capítulo 25 do livro
primeiro de “O Capital” o que chamou de acumulação primitiva. Ela seria
como o pecado original do capitalismo, o início do processo que
culminou na distinção entre os que detêm e os que não detêm os meios de
produção. Teria acontecido entre os séculos XIV e XVI e resultado na
extinção da figura do servo feudal e na criação do homem livre – aquele
que não dispõe de outra alternativa para sua sobrevivência senão vender
a sua força de trabalho.
Mais
de 500 anos após o início do processo de acumulação primitiva – e pouco
mais de um século depois de Marx tê-lo descrito – alguns movimentos
sociais, liderados pela ONG canadense ETC Group (Grupo de Ação sobre
Erosão, Tecnologias e Concentração), sustentam que estaria ocorrendo um
processo análogo. Segundo eles, as grandes corporações estariam
promovendo, com o uso da tecnologia, novos “cercamentos” (enclosures,
em inglês). Da mesma forma como as terras comunais foram sendo
“cercadas” e tomadas, por aqueles que se tornaram os donos dos meios de
produção, as empresas estariam fazendo uso da tecnologia para adquirir
privilégios e criar novos monopólios.
A
idéia foi apresentada no em uma sessão do Fórum Social Europeu no
início de outubro. Em uma atividade intitulada “Resistindo aos
monopólios corporativos e aos novos cercamentos”, o ETC Group reuniu
representantes de organizações como a Associação Britânica pelo
Software Livre, o Greenpeace e o Corporate Watch. Na sessão, foram
debatidas a questão das patentes sobre software e sobre a vida; o
futuro, aplicações e a fusão entre nanotecnologia e biotecnologia; e as
características da nova geração de plantas transgênicas, entre outros.
Um
dos efeitos da acumulação primitiva foi o surgimento da figura do
grande proprietário capitalista, o dono dos meios de produção e da
terra. O capital acumulado por ele tranformou-se, em seguida, em
investimentos que levaram à industrialização e à emergência do
proletário. Hoje, esse papel seria desempenhado pelas empresas.
Controlando o desenvolvimento tecnológico, elas criariam mecanismos
que, combinados com as leis de propriedade intelectual, reforçam
antigos monopólios e geram outros, agora sobre as formas de vida.
Algumas novas tecnologias serviram para controlar a germinação de
plantas, o posicionamento geográfico de animais ou mesmo para o
gerenciamento de obras que circulam pela internet. Assim como a
acumulação primitiva usou da usurpação da terra dos camponeses, hoje o
controle sobre as formas de vida estaria a caminho de se tornar um
privilégio de certas empresas.
Não cresça, não se reproduza
As
siglas V-GURTs e T-GURTs designam dois “novos cercamentos” sobre as
formas de vida. V-GURT significa algo como Tecnologia para a Restrição
de Uso da Variedade Genética. A sua maior expressão é a tecnologia
Terminator, aquela em que a variedade transgênica da planta é estéril.
Logo após a concessão de patente por essa tecnologia, em 1998, houve
intensa repercussão internacional. Agricultores de diversos países
protestaram, por temer que a prática de guardar as sementes de uma
safra para outra se tornasse impossível. A Monsanto, que adquiriu a
patente no ano seguinte, comprometeu-se a não usar a a tecnologia, a
não ser para testes internos da companhia.
A
tecnologia T-GURTs foi descrita como a segunda geração do controle
sobre a vida. A sigla pode ser traduzida por Tecnologia para a
Restrição do Uso de Traços Genéticos. Nesse caso, não é apenas a
fertilidade da planta que é controlada mas também a expressão de certa
característica do organismo. Uma plantação transgênica, por exemplo, só
poderia ter sua resistência a certa praga ativada a pós a aplicação de
um determinado composto químico, fornecido pela empresa detentora da
tecnologia. Os agricultores que adquirirem as suas sementes no mercado
ilegal não obterão vantagem alguma, pois não possuirão o composto
químico capaz de "ligar" o gene de resistência.
Para
as entidades presentes da sessão do Fórum Europeu, há um risco evidente
nessa tecnologia. Como a semente que ela produz não é estéril, poderia
haver a contaminação de plantações vizinhas. Nesse caso, uma plantação
alvo de contaminação poderia não se desenvolver por completo, já que o
agricultor não disporia dos insumos químicos que ativariam um gene de
crescimento, por não ter adquirido as sementes do detentor da
tecnologia.
Em novos contratos, “polícia genética”
A
tecnologia para tornar o desenvolvimento normal de uma planta
dependente da adição de um determinado insumo químico já existe. Sua
patente é de propriedade da Syngenta, um dos gigantes da biotecnologia.
As sementes estéreis têm um alto custo de produção, o que dificulta a
sua entrada no mercado. Plantas que precisam ser "ligadas" para crescer
ou para se tornarem férteis - patente estadunidense de número 6147282 -
teriam um menor custo de produção.
O
ETC Group acredita que o alto investimento das empresas no
desenvolvimento dessas tecnologias se deve à dificuldade encontrada
para a aplicação legal dos direitos de propriedade intelectual.
“Terminator e outras tecnologias de controle da expressão de traços
genéticos podem substituir ou se somar à propriedade intelectual como a
opção para estabelecer a supremacia tecnológica no mercado de
sementes”, afirma o grupo no comunicado intitulado “Novos cercamentos:
métodos alternativos para aumentar o monopólio das corporações e a
bio-servidão no século XXI”.
Contratos
como os que são estabelecidos pelas empresas com os agricultores nos
Estados Unidos são tidos, pelas entidades, como equivalentes jurídicos
das GURTs. De acordo com esses contratos, os agricultores se
comprometem a comprar novas sementes a cada safra, usar o pesticida
fornecido por um único fornecedor e se submeter à inspeção periódica de
agentes da empresa, além de manterem sigilo sobre pontos do contrato. O
New York Times já classificou esses agentes de “polícia genética”.
Não veja, não ouça
No
mundo digital, as GURTs encontram seu parelelo no DRM (sigla em inglês
para Gerenciamento Digital de Direitos). “Sabe que é curioso, estávamos
pensando em passar a usar o termo DURTs (Tecnologias Digitais para a
Restrição de Uso, em inglês) mesmo antes de conhecer o problema na área
biotecnológica”, afirmou o hacker britânico MJ Ray, desenvolvedor de software livre presente na sessão promovida pelo ETC Group.
Ray acredita que o DRM é intrinsicamente incompatível, técnica e filosoficamente, com o software
livre. A tecnologia de gerenciamento digital de direitos permite ao
proprietário dos direitos autorais (as empresas) "autorizar" ou não a
execução de um arquivo. Ao ouvir um arquivo em MP3, por exemplo, o
computador do usuário entraria em contato, pela internet, com um banco
de dados que confirmaria a posse legal daquele arquivo. "Isso pode
trazer problemas ao software livre pois, pela sua
arquitetura, ele é capaz de burlar facilmente esse tipo de restrição",
disse Ray. Os EUA, baseando-se em uma lei chamada DMCA (Lei de direitos
autorais do milênio digital, em inglês), já prenderam e multaram
milhares de usuários por violarem ou construírem sistemas que burlam
restrições de direitos autorais.
"Isso
pode ser um problema para o software livre", afirma o advogado
especializado em direitos autorais Marco Ciurcina. Mas para ele, o DRM
afeta principalmente o chamado "uso justo", o direito que alguém que
compra um CD, por exemplo, tem de fazer uma cópia para si. "O DRM é
incompatível com a lógica de um direito flexível. O direito autoral não
é absoluto, acima dele está o direito da comunidade de usufruir das
obras - o que hoje é permitido pela regra do uso justo".
A
preocupação dos ativistas refere-se também ao controle da produção
intelectual na mão das grandes empresas. Quase a totalidade das obras
artísticas coletivas (músicas, filmes) e grande parte das obras
individuais (livros, fotos) não é controlada pelos autores e sim por
gravadoras, estúdios, editora e outros. Em um episódio recente, nem
mesmo o ministro da cultura do Brasil, o músico Gilberto Gil, conseguiu
dar autorização legal para que três de suas músicas pudessem ser
compartilhadas livremente na internet. Refazenda, Refavela e Realce são controladas pela gravadora Warner, que não autorizou a liberação. Gil compartilhou Oslodum, canção gravada de forma independente.
O
sucesso do DRM pode significar o controle sobre um processo (o
compatilhamento na rede) que tem democratizado o acesso à cultura e
pressionado a indústria do entretenimento a alterar seu modelo de
negócio, diminuindo as margens de lucro. Ao mesmo tempo, ao adquirir um
controle monopolista sobre os produtos culturais e sobre a reprodução
da vida, usando dos "novos cercamentos", a indústria pode, pelo
diagnóstico do ETC Group, expandir seu campo de atuação e dar origem a
novos monopólios: sobre a vida e sobre as idéias.
Para ler (em inglês):
New Enclosures: Alternative Mechanisms to Enhance Corporate Monopoly and BioSerfdom in the 21st Century
O Capital. Parte VIII - A acumulação primitiva