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Um império ameaça a humanidade
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Um império ameaça a humanidade

O jornalista português Miguel Urbano faz o alerta e chama à mobilização, a despeito de incertezas teóricas. Para ele, a tarefa é se contrapor a uma potência que põe em risco a continuidade da vida na Terra

Após viver os últimos oito anos em Cuba, o jornalista português Miguel Urbano Rodrigues voltou, em agosto último, à sua terra natal. Antes, passou pelo Brasil, onde viveu e trabalhou por quase duas décadas. Aqui, lançou o segundo volume de “O espaço e o tempo em que vivi”, suas memórias. Editadas pela Campo das Letras, elas se dividem em “Procurando um caminho” e “Revolução e contra-revolução na América Latina”. Em São Paulo, debateu com sindicalistas, estudantes e intelectuais a conjuntura internacional. Fez um alerta: “a humanidade vive a maior crise de sua história”, representada pelo poder hegemônico dos Estados Unidos. Como enfrentá-la? O comunista Miguel Urbano reconhece a decadência dos partidos revolucionários -- mas propõe mobilização concreta, ao invés das tendências que considera “neoanarquistas” ou “teoricistas”.

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Foto: Beatriz Arruda/SEESP

O senhor acaba de lançar no Brasil “O espaço e o tempo em que vivi”, seu livro de memórias. Qual a sua avaliação do tempo em que vivemos hoje?

Na minha opinião, a humanidade vive a maior crise da sua história, mais  profunda e complexa que aquela que assinalou o fim do Império Romano. É simultaneamente econômica, financeira, militar, política e ambiental. Sua causa é um sistema de poder com características inéditas, hegemonizado pelos Estados Unidos, que retomaram o sonho antiqüíssimo do Estado universal, mas com a ambição de ser perpétuo. Isso representa uma ameaça que põe em perigo a própria continuidade da vida na Terra. Apesar de serem uma nação muito poderosa militarmente e a primeira potência econômica, os Estados Unidos tornaram-se uma nação parasita. É um país que consome muito mais do que produz. Há vários anos, sua balança comercial é negativa. O déficit de junho, por exemplo, é cerca de US$ 45 bilhões. Sua dívida externa é maior do que a de todas as nações somadas. A interna é também assustadora: corresponde a 85% do seu Produto Interno Bruto.

Mas os Estados Unidos são uma ameaça ainda maior pela sua fragilidade?

Por terem se transformado num país parasita,  procuram solução para uma crise estrutural que não tem saídas. A que se busca no momento é a das guerras preventivas,  definidas pelo governo Bush. Por um lado, estas soluções estão voltadas à destruição de determinados países, o que dinamiza o complexo militar industrial -- e, por conseqüência, dá a ilusão de crescimento. Por outro, trata-se do saque dos recursos naturais de outros povos. Hoje,  os EUA procuram assegurar seu abastecimento de petróleo que, em mais da metade,  tem de ser importado. A guerra contra Iraque, a agressividade contra o Irã, toda a política no Oriente Médio -- incluindo Israel, como instrumento dessa dominação, tem esse objetivo.  

Qual a alternativa, diante de um poder que tem fragilidades, mas se mostra imbatível?

Há duas posições diferentes. Uma delas é a que se vê nos Fóruns Sociais Mundiais. O inimigo é muito poderoso,  não temos condições de destruí-lo, então vemos se o reformamos,  se conseguimos humanizá-lo. Enquanto isso, vamos buscando uma alternativa teórica à globalização, vamos pensar a reforma da democracia e possivelmente um socialismo de novo tipo. Isso parece o mais razoável -- mas é utópico, porque não se conseguirá nunca formular uma alternativa teórica que seja aceita universalmente. A solução do futuro para um país como o Brasil não será a mesma para o Canadá ou a Tailândia.

A outra posição sustenta que, como não podemos cair no  teoricismo, temos que nos mobilizar contra o inimigo que é frágil, embora oculte suas fraquezas. Eu penso que o caminho é esse: o da mobilização dos povos contra a ameaça à humanidade, até porque o sistema de poder dos Estados Unidos, pelo seu amoralismo, só encontra precedente no Reich nazista, como mostraram os crimes cometidos no Iraque e no Afeganistão pelo exército norte-americano.

Pelo que o senhor diz, a posição majoritária no Fórum Social Mundial é equivocada...

Os fóruns sociais, o mundial ou os regionais, são espaços de diálogo insubstituíveis, nos quais os movimentos sociais tiveram um papel decisivo na mobilização. Contudo, há limites. É certo que uma organização revolucionária de novo tipo só se definirá no decurso da luta, porque hoje a maioria dos partidos comunistas apodreceu – na Europa, há dois que se mantêm fiéis a certos princípios, na Grécia e em Portugal. Entretanto, há uma tendência muito visível de voltar o debate a questões que acabam por ser inócuas. Há um movimento neoanarquista, que tem à sua frente intelectuais como John Holloway e Toni Negri, que é desmobilizador. Um exemplo é o zapatismo, cuja teoria se expressa numa frase: “sou um rebelde, mas não sou um revolucionário”. O subcomandante Marcos é um intelectual brilhante, mas não ameaça o sistema.  Os movimentos são importantíssimos e indispensáveis, porém não substituirão a capacidade de mobilização permanente da organização revolucionária.

O senhor vê falta de sentido do zapatismo, no México. Atualmente, há resistência real ao poder hegemônico na América Latina?

Há um triângulo positivo, que coloca desafios insuperáveis ao imperialismo: Colômbia, Cuba e Venezuela. Cuba resiste há 45 anos com grande dignidade e continua a ser um país independente. É um magnífico exemplo. Na Colômbia, há 39 anos, uma guerrilha que, eu defino como heróica, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), resistem a uma oligarquia apoiada pelos Estados Unidos. A Venezuela demonstra, por sua vez, que, usando as instituições criadas pela burguesia, pode-se transformar a sociedade. Enfrenta complexidades -- como depender muito da exportação de petróleo (cujo principal consumidor são os Estados Unidos) e não contar com um partido político (porque o V República, de Chávez, no fundo é mais movimento que organização revolucionária). Mas é um processo fascinante, um laboratório de luta de classes como talvez não haja outro no mundo. A revolução bolivariana é fiel a um ideário político que mereceria maior atenção no Brasil.

 

 



Publicado em www.planetaportoalegre.net: 22/09/2004



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